Comparação com outras terapias

Remoterapia, equoterapia ou hidroterapia: como escolher

Leonardo Pirozzolo · Fundador e responsável técnico · 02 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Close de crianças remando na canoa polinésia, com os remos entrando na água no mesmo ritmo.

Remoterapia, equoterapia e hidroterapia são três terapias complementares que usam movimento e um ambiente específico (mar, cavalo ou água controlada) como estímulo sensório-motor para crianças com TEA. Nenhuma delas substitui o consultório. A escolha entre elas depende do perfil da criança, da disponibilidade local e do que o terapeuta responsável recomenda.

Esse artigo compara as três de forma direta, incluindo o que a ciência já mostrou sobre cada uma, para ajudar pais e profissionais a decidir com mais clareza.

Equoterapia

Equoterapia é uma abordagem terapêutica interdisciplinar que usa o cavalo como agente promotor de saúde e desenvolvimento. Os benefícios relatados na literatura incluem ganhos motores (marcha, equilíbrio, esquema corporal), funcionamento emocional, comunicação e processamento sensorial.

A maior parte da evidência disponível vem de revisões de literatura e séries de casos, não de ensaios clínicos randomizados em grande escala. As próprias revisões brasileiras reconhecem essa lacuna: existe bom volume de relato clínico, mas pouca pesquisa controlada específica sobre TEA.

Hidroterapia

Hidroterapia é o uso terapêutico da água em ambiente controlado, geralmente piscina, com técnicas como Halliwick, Bad Ragaz ou Watsu. Para TEA, os benefícios relatados incluem melhora em habilidades físicas, sociais e emocionais, comunicação não-verbal, coordenação motora e redução de comportamentos estereotipados.

Essa é a terapia com a base de evidência mais forte das três. O ensaio clínico da AquOTic, publicado na Frontiers in Pediatrics em 2024, acompanhou 37 crianças autistas em dez semanas de terapia ocupacional aquática, com ganhos estatisticamente significativos em competência aquática e ajuste sensorial. Existem outros ensaios randomizados publicados em periódicos internacionais indexados entre 2022 e 2026.

Remoterapia

Remoterapia é o método criado pela Canoa DeVerGente, que une Análise do Comportamento Aplicada (ABA) à canoa polinésia (Va’a) em mar aberto, praticado em dois núcleos em Niterói. É a mais nova das três abordagens: não existe ainda um estudo clínico publicado especificamente sobre canoa polinésia e autismo.

O que sustenta a remoterapia cientificamente são os pilares que ela combina de forma inédita: ABA (manejo comportamental e reforço positivo), blue spaces (o efeito regulador de ambientes aquáticos naturais) e sincronia de grupo em atividade física coletiva, um fenômeno documentado desde 2010 em estudos sobre remo em equipe.

E a musicoterapia?

Vale mencionar uma quarta opção comum nesse universo de terapias complementares: a musicoterapia. Os benefícios relatados incluem melhora em comunicação, interação social e redução de comportamentos estereotipados. A qualidade metodológica das evidências disponíveis, segundo revisões sistemáticas publicadas, é considerada baixa a moderada, com amostras pequenas e limitações de desenho de pesquisa reconhecidas pelos próprios autores. É uma opção promissora, mas com base científica ainda mais preliminar do que a da hidroterapia.

Comparando as três

Ambiente Evidência científica Onde encontrar em Niterói/RJ
Equoterapia Cavalo, em solo Revisões e casos clínicos Centros de equoterapia da região
Hidroterapia Piscina controlada Ensaios clínicos randomizados Clínicas de terapia ocupacional aquática
Remoterapia Mar aberto, canoa polinésia Prática nova, pilares de base validados separadamente Canoa DeVerGente (São Francisco e Itaipu)

Cobertura por plano de saúde

Vale um parênteses prático: desde 2022, a ANS eliminou o limite numérico de sessões de terapias como psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e fisioterapia para pacientes com TEA, e em 2026 o STJ reforçou que limitar essas sessões é abusivo. Isso vale para a sessão do profissional de saúde habilitado que usa essas técnicas, hidroterapia e equoterapia incluídas, quando prescrita dentro do escopo da profissão. A remoterapia, por ser uma prática nova, ainda não tem esse histórico de cobertura testado. Vale sempre confirmar diretamente com o plano de saúde e com o profissional prescritor antes de contar com reembolso.

Como decidir

Alguns pontos práticos ajudam a orientar a escolha:

  1. Perfil sensorial da criança. Algumas crianças respondem melhor ao movimento vestibular do cavalo, outras à pressão e flutuação da água, outras ao ritmo coletivo do remo.
  2. Indicação do terapeuta responsável. Nenhuma dessas terapias deve substituir o plano terapêutico existente. O ideal é que médico, terapeuta ocupacional ou psicólogo avalie qual se encaixa melhor como complemento.
  3. Objetivo da família naquele momento. Se o objetivo é trabalhar medo de água, hidroterapia tende a ser o ponto de partida mais direto. Se o objetivo é vínculo social em grupo e regulação em ambiente aberto, a remoterapia tem esse foco específico.
  4. Disponibilidade local. Isso, na prática, também pesa bastante na decisão.

Nenhuma das três compete com as outras. Elas atacam ângulos diferentes do mesmo problema: variar o estímulo, sair do consultório e trabalhar corpo, regulação e vínculo de formas que se complementam.

É possível combinar mais de uma

Não existe regra que impeça combinar, por exemplo, hidroterapia numa fase e remoterapia em outra, ou equoterapia e remoterapia em paralelo, desde que a carga total de terapias não sobrecarregue a rotina da criança e da família. O ponto de atenção real não é qual terapia é “melhor” de forma abstrata, é qual sequência e combinação fazem sentido para aquela criança, naquele momento, dentro do plano definido com os profissionais que já a acompanham.

Para entender em detalhe como funciona uma sessão de remoterapia, veja o artigo completo sobre a metodologia da Canoa DeVerGente, ou como o ambiente aquático em si já ajuda na regulação sensorial em blue spaces e o efeito do mar no sistema nervoso.

Canoa DeVerGenteAinda em dúvida qual terapia complementar escolher?